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A intimidade anônima dos quartos de hotel, pela lente de uma fotógrafa voyeur

By , 19/04/2018

Depois que seus hóspedes vão embora, um quarto de hotel continua a contar uma história. Pelo menos por um curto espaço de tempo. Foi pensando nisso que a fotógrafa e artista visual italiana Giulia Dini percorreu hotéis de Milão com sua câmera em mãos. A missão: testemunhar e registrar aquele breve momento entre o check-out dos hóspedes e a chegada da equipe de limpeza para pôr tudo novamente no lugar.

Hotel Principe di Savoia, Milão

Obter autorização dos hotéis para registrar essa intimidade anônima não foi simples, como ela contou à trivago Magazine: “O acesso a esses quartos foi a parte mais difícil do projeto. Hotéis querem ter uma imagem limpa e organizada de seus espaços, então meus pedidos foram recusados muitas vezes”.

Quarto do hotel Principe di Savoia, Milão

Por sorte, Giulia também encontrou hotéis receptivos ao conceito do projeto. Mas qual, afinal, é o conceito? “Sou uma pessoa nostálgica e naturalmente atraída por assuntos relacionados ao ser e à memória”, conta a fotógrafa. “Eu queria criar algo sobre intimidade, e quartos de hotel são um lugar fascinante para explorar esse conceito”.

Fotógrafa italiana Giulia Gini.“Em muitos casos, quartos de hotel são lugares pouco familiares, mas são onde vivemos momentos muito íntimos de nossas vidas e onde, inevitavelmente, deixamos para trás alguns de nossos traços”.

Por causa desse conceito, o projeto fotográfico se chama Left Behind (“Deixado para trás”) e foi registrado em quartos dos hotéis italianos Principe di Savoia, STRAF, Antica Locanda Solferino e LaGare.

Foto do hotel Straf, em Milão

Em alguns casos, o conceito do ensaio combinou com o do hotel, como no hotel boutique STRAF (acima), que é definido por seu designer, Vicenzo de Cotiis, como um “hotel instalação”. “O STRAF é quase uma instalação, porque comecei a escolha de materiais com múltiplas referências e tendências contemporâneas, como a Arte Povera”, explica Cotiis, no material de divulgação do hotel.

O resultado são imagens óbvias, de travesseiros amassados e lençóis revirados – eventualmente com um copo ou jornal do dia anterior jogado em um canto –, mas que dão margem para todo tipo de ensaio imaginativo do que se passou por ali. “Na minha cabeça, tenho uma história completa sobre cada uma das fotos”, conta Giulia. O foco na cama também não foi à toa:

 “Voltei às atenções para a cama porque ela é o item mais proeminente e íntimo que compartilhamos em um quarto de hotel. Mas há muitas coisas em um quarto que testemunham a nossa passagem após o check out”.

Essa busca pelo que há de particular e único também se reflete nas preferências de viajante de Giulia. “Quando viajo, tendo a buscar hotéis com personalidade e não grandes redes padronizadas. Prefiro um hotel menor, melhor ainda se administrado por uma família, onde se pode ter um relacionamento mais humano e pessoal”.

Por exemplo? “O Valdirose, perto de Florença. É um bed and breakfast com estilo nos interiores, atenção nos detalhes, um café da manhã de sonhos, feito em casa pela adorável família dos proprietários”, recomenda Giulia, que nasceu em Turim, viveu muito tempo em Milão e, há dois anos, fincou o pé em Londres.

O projeto fotográfico Left Behind, segundo ela, ainda não chegou ao fim: “Agora quero continuar trabalhando a ideia em outras cidades, para ver se encontro diferenças”.


Foto da artista por Viktoria Binges